quarta-feira, 8 de julho de 2015

O desencarne de Allan Kardec

Eis que o momento chegou. Era dia 31 de março de 1869, fazia dez dias que a estação da primavera iniciava a florir Paris e Kardec contava com 64 anos e cinco meses. As orientações da Espiritualidade, de amigos fraternos, já haviam lhe indicado atenção quanto ao trabalho estafante. Os trabalhos exaustivos e a dedicação incansável à missão de fazer nascer o Espiritismo, somado ao cansaço da mudança para o novo lar e ao frio do inverno que cobrou um esforço maior do coração, fizeram com que as rotinas de trabalho do missionário chegassem ao intervalo de descanso.
O desencarne se fez de forma abrupta. Somente suas mãos espirituais acolheram ao peito no momento fugidio de uma sensação de aperto e queimação. Tudo ocorreu muito rápido, poupando Kardec de qualquer sofrimento físico ou de embargos que estendessem um prolongamento de uma vida parcial do encarnado. O desligamento imediato de partes vitais oportunizou ao missionário enxergar o aparelho físico já inerte, enquanto que o irmão que pegaria os pacotes da Revista Espírita, assustado, procurava reanimar o combalido corpo, chamando-o pelo nome. Gabi, sua esposa, nada demorou para verificar que o momento havia chegado. O corpo de Kardec não reagia mais. E ali estava o Espírito de Kardec a observar a cena, lhe causando certa confusão e angústia ao ver e ouvir a dor, o pesar e o sofrimento daquela que lhe apoio sem pestanejar.
A lástima dos amigos ao chegarem e observarem o missionário Kardec sobre um colchão, faziam ao Espírito recém desencarnado sentir na sua Alma o ecoar da dúvida quando dos primeiros momentos que tomou para estudar sobre as manifestações do mundo invisível.
A sala onde o corpo era velado estava repleta de Espíritos, confirmando ao missionário que, de fato, o mundo invisível se acotovela em observar o mundo dos encarnados.
Kardec, agora desencarnado, não arredava do lado da sua esposa Gabi. Junto de Kardec estava o Espírito de seu pai, lhe dando o suporte necessário para o momento de transição. Foi esse Espírito, seu pai, Jean-Baptiste Antoine Rivail, quem acompanhou, orientou e protegeu Kardec durante a atividade missionária de estabelecer o Espiritismo. Pai esse que desencarnou em atividade militar na Espanha, quando Kardec, ainda na infância, tinha de três para quatro anos. O Espírito de Jean-Baptiste acolhia e aconselhava Kardec a cada momento específico do velório, do cortejo fúnebre e das homenagens; da mesma forma que durante a construção da Doutrina também o fizera, ao chamar a atenção sobre questões textuais e orientar sobre o conhecimento espírita organizado por Kardec.
Ocorre que Kardec recebeu do Alto a oportunidade de acompanhar todo o cortejo fúnebre, e pode, assim, ouvir e sentir os efeitos das conversas e dos pensamentos dos encarnados. Ouviu cada palavra dos companheiros que acolheram em discurso junto do local onde era depositado o corpo. E com maior facilidade pode perceber e distinguir o que era dito com sinceridade, daquilo que era pronunciado apenas como pompa; identificando sentimentos de sinceridade, interesses e também de oportunidades que se manifestavam no íntimo dos encarnados que labutariam pela continuidade do Espiritismo.
Kardec vislumbrou nos discursos a verdade ditada pelos Espíritos Superiores quando da origem da Doutrina. O Espiritismo não seria mais o mesmo. Outros propagadores; novas realidades. O Espiritismo se propagaria, sim, tal como fora ditado pelos Espíritos em Prolegômenos, no Livro dos Espíritos, ou seja: a de que a vaidade de certos homens, que julgam saber tudo e tudo explicam a seu modo, dará nascimento a opiniões dissidentes. Mas, quanto aos seus fundamentos, a Doutrina será sempre a mesma para aqueles que receberem comunicações de Espíritos Superiores.
A certeza nos princípios do Mestre Jesus e a crença nas bases da Doutrina era o que lhe dava um pouco de tranquilidade quanto ao coração da sua companheira Gabi, que poderia ser arrastada ao erro para atender às particulares pretensões de certos propagadores do Espiritismo.
Terminado os atos fúnebres, o cerimonial se desfez e Kardec se despediu daqueles que lhe foram caros. Seu retorno só ocorreria em próxima encarnação, sem haver tempo nesse interregno para qualquer aproximação ou manifestação do missionário no mundo encarnado. O Espírito Jean-Baptiste levou Kardec para o acolhimento hospitalar na Espiritualidade. Afinal, era necessário o atendimento revigorador da Alma de Kardec; bem como o órgão cardíaco necessitava de reparos.
Bartolomeu (Espírito Mentor)

Mensagem recebida em 07 de julho de 2015.

Um comentário:

  1. Que o nosso Amado Codificador possa, agora que está de novo reencarnado, cumprir e terminar sua tarefa na Luz. Abraços nessa Luz. Álvaro de Jesus, cidade do Porto-Portugal e Novo Templo 'O Caminho'.

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