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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

EXPERIÊNCIAS PASSADAS

Minhas experiências na vida que tive na Terra foram das mais, muito interessante.
Fui um daqueles que trabalhou na construção de pontes e estradas. E lá pelos anos de 1920 e 1930. Tudo era muito diferente para as obras, quando comparadas com hoje. As atividades eram mais difíceis e o tempo também era mais complicado. Sofria com as diferentes temperaturas, com o calor do sol e com os ventos que secavam a garganta. Tive minhas horas de descanso como muitos faziam, bebericando nos bares da vida, conhecendo mulheres e as vezes até me envolvendo em confusões, em brigas.
É claro que me queixava, no silêncio do meu íntimo, sobe a condição dos trabalhos pelo qual passava. Queria entender, o porquê de ter que sofrer tanto para conseguir viver. Mas as atividades eram longas e intermináveis. Quando iniciavam as obras de uma estrada, dava a impressão de que não se chegaria ao fim. E tudo era deixado de lado, em particular os pensamentos da dor e da saudade de casa e da família.
Foi com muita dor e sofrimento que meu corpo foi sentindo o peso do trabalho. Claro que era tudo trabalho duro e tinha que esforçar ao máximo para concluir o que estaria determinado pelo chefe da obra. As dores e os calos já não permitiam mais uma vida adequada. Sentia que tinha de trocar de profissão. Mas as condições não permitiam. Quando terminava uma obra ficava esperando o surgimento de outra. E nesse tempo de espera tinha que fazer bicos para conseguir algum dinheiro para o sustento.
É, a vida me ensinou muitas coisas, com muita dor e angústias. E sempre decidi saber o porquê de tanto sofrimento. Eu até aceitava as condições do trabalho duro; de quebrar pedras ou mesmo de empurrar e colocar blocos pesados nas estruturas. De erguer vigas de ferro ou mesmo de cavar a terra sob o sol escaldante. Mas essas dores deixavam marcas profundas em meu corpo. E o pó da estrada e o ar seco, e o sol, deixaram meu corpo muito debilitado. Mas o pior eram as doenças que adquiria com o tempo. E foi numa dessas que meu corpo não suportou.
A malária se fez muito forte em muitos dos que trabalhavam na construção de uma estrada. E eu estava entre os muitos doentes. Fomos isolados em barracas, onde recebíamos os tratamentos médicos. E eu passei a ter delírios com a febre, que era alta.
De hora em hora, um padre passava por entre as macas e fazia orações. Eu não sabia orar. E quando o padre orou pela alma, de um amigo que morria ao meu lado, foi que pedi para o padre me explicar porque tive aquela vida e porque tinha que morrer daquele jeito. O padre explicou muitas coisas, mas não entendia muito o que ele explicava, isso porque não fazia sentido para mim aquelas explicações.
E com o passar do tempo, vendo que a cada dia morria um ou dois, eu comecei a rezar para quando chegasse a minha vez de morrer. Pedi ao padre me ensinar uma oração e ele me ensinou a Ave Maria. Foi quando estava rezando a Ave Maria, numa certa manhã, junto com o padre, que percebi algo diferente.
O padre havia me dado a extrema-unção, e eu estava morrendo. Mas me vi fora da maca e amigos meus vieram ao meu redor. E, acreditem, a primeira pergunta que fiz foi: Por que tive que passar por essa vida de dor? A pergunta foi no impulso. Mas me disseram que entenderia.
Sim, eu entendi. Depois de um tempo pude recordar de minhas vidas passadas, de outras experiências. E numa dessas eu vi e vivi como chefe de obras em construções que ainda encontram os olhos humanos.
O meu desprezo pelos outros que trabalhavam de sol a sol, foi cobrado de mim na vida que tive como construtor de estradas e pontes. E a malária foi minha porta de saída dos desafios que me coloquei para aprender e me redimir das dores que em outros causei. É, foi a malária e sua febre o relógio em contagem regressiva a apontar o que eu naquele momento não sabia: a de que estava saldando um aprendizado. E o padre que não me conhecia, ele sim, foi meu anjo guia, a me conduzir até a porta de entrada na Casa do Pai.
Fica minha experiência registrada. De um obreiro que aprendeu para ensinar.
Fiquem com Deus, sempre!
Antonio Cândido


Psicografado em 26 de agosto de 2017.