Ainda na madrugada de domingo, dia seis de fevereiro de 2011, o mentor Bartolomeu levou-me para um condomínio residencial em Porto Alegre, localizado na região leste.
Entramos em um pequeno apartamento. Na sala estavam dois rapazes e uma garota conversando e rindo.
Bartolomeu explicou qual a nossa atividade naquele local:
-Charles! Hoje vamos trabalhar no resgate de um irmão desencarnado. Você não enxerga, mas aqui estamos na companhia de irmãos de luz que já estão trabalhando para o resgate e orientação deste irmão que desencarnou há algum tempo. Da mesma forma, os três irmãos não estão nos enxergando, mas você se tornará visível para eles e te pedimos que converse com eles. Vou te orientar no que deves conversar com nosso irmão.
-Certo! Espero auxiliar sem atrapalhar o resgate.
-Fique tranquilo. Apenas procure demonstrar afinidade com eles. Dois deles ainda estão encarnados e seus familiares pedem auxilio do Alto para que larguem o vício. O outro que desencarnou, vem recebendo orações de sua mãe encarnada. Cabe a nós socorrê-lo. Vamos lá.
Nesse momento os três integrantes da sala me viram. O irmão desencarnado puxou imediatamente conversa comigo.
-Opa! Chegou mais um pra nossa festa. O amigo trouxe alguma contribuição ou só veio pra fica fissurado.
Entre risadas e comportamento de aconchego, a moça, que estava sentada no sofá, censurou a maneira de recepcionar-me.
-Júlio! Aqui não é tua casa. Na minha casa mando eu. Deixa o rapaz. Ele pode ficar.
E olhando para mim, continuou.
-Olha só, não dá bola pra ele. Pode sentar aqui e conversar com nós. O Júlio não tem modos, mas é uma boa pessoa. Viu, senta aqui.
O outro espírito encarnado se levantou do sofá e ficou de pé, junto de um abajur no canto da sala. Parecia receoso, demonstrando desconfiança. Ficou ali em silêncio, escutando nossa conversa.
Já o Júlio, o espírito desencarnado e que estava sendo preparado para o resgate, se levantou do sofá e disse que iria até o banheiro. Nesse instante, sob orientação do Bartolomeu, puxei conversa com ele.
-Júlio, não precisa se preocupar comigo. Estou aqui apenas de visita. Eu moro aqui perto.
Bastou dizer isso e o Júlio já interrompeu sua ida ao banheiro e voltou a questionar.
-Mas então tu conhece o pessoal chegado no pó e na pedra?!
-É... Talvez alguns. Mas não todos. Tu também é morador daqui do bairro?
A moça deu uma risada e complementou:
-Pelo jeito a conversa vai longe. O Júlio gosta de falar sobre isso. Já não é a primeira vez.
Apesar do comentário da moça, Júlio passou a falar sobre seu bairro.
-Eu morava no bairro Agronomia. Nunca fiz mal pra ninguém. Mas sempre gostei de dar uma cherada. Ficar fissurado. Depois pequei a pedra. Essa foi melhor ainda. Essa detona mesmo. O cara fica fissuradão. Lembro que foi numa dessas épocas que as coisas mudaram. Fiquei sem sono e sempre ligado. Outro dia teve um cara que me perguntou se eu lembrava de como tinha morrido. Mas nossa! Cara! Eu nem sei como vim pará aqui. A Lú e o Kevi continuam meus amigos. A gente se encontra seguido aqui no apartamento da Lú. Como eu não consigo mais comprar as pedrinhas, eles compram e a gente fuma junto.
Sob orientação do Bartolomeu, dei continuidade ao diálogo.
-Quer dizer então que tu sabes que está morto, mas continua visitando teus amigos?
-É! Isso parece uma viajem meia doida. Num dia eu cheguei na boca pra compra pedra e os caras de lá não me deram bola. Sabe como é. Eles nem falaram comigo. Eu gritei, mas eles nada pra mim. Daí eu procurei o Kevi. Falei com ele que tava querendo fica fissurado e que não tinha dinheiro e os mano da boca não queriam mais vender pra mim. No início o Kevi parecia estar viajando. Não me dava atenção. Mas depois de um tempo o cara se ligo na minha e foi comprar umas pedrinhas. Depois eu vim falar com a Lú. Ela também não falava comigo. Parecia doida. Eu falava com ela e ela ficava dizendo “sai pensamento ruim”. Daí eu me dei conta que tava morto. Me liguei, então, de conversar com a Lú e o Kevi durante a noite. E aí a gente troca uma ideia.
-Então tu moravas no bairro Agronomia?!
-É! Fica aqui pertinho.
-E tu não lembras como morreu?
-Não! Só lembro que antes eu trabalhava numa obra e fiquei desempregado.
-Quando você ficou desempregado?
-Foi em 2007.
-Então quer dizer que em 2007 você foi despedido e que talvez tenha morrido, é isso?
-Olha só. Não sei bem direito. Sei que fui despedido em 2007 porque onde eu trabalhava acabou o serviço. Depois disso eu fiquei um tempo procurando serviço. Mas daí passei a fumar mais pedras. Num certo dia eu não consegui mais compra pedra. Fiquei um tempão. Só depois fui falar com o Kevi.
-Júlio, você sabe em que anos nós estamos.
-Em 2008?
-Não! Ali na parede tem um calendário. Olha de que ano é o calendário.
Júlio olhou para o calendário, viu o ano de 2011 e deu de ombros.
-E daí que é 2011. Não faz diferença.
Nesse momento do diálogo o Kevi já havia se retirado. Enquanto isso, a moça continuava sentada no sofá, escutando a conversa entre eu e Júlio Fui orientado a conversar sobre a questão dos anos que se passaram sem que ele tivesse percebido. Comentei que havia outras cidades para ele conhecer.
-Júlio... Existem outras cidades que você deve conhecer. Não precisa ficar aqui. Isso para você é um sofrimento e vem fazendo a Lú e o Kevi sofrerem por você. Olha como a Lú está. Ela nem tem mais amigos por sua causa. Só o Kevi vem aqui. A Lú está procurando tratamento médico para sua dependência química. Logo ela estará recuperada. Já você poderá ficar sozinho. Mas antes disso. Repare que você não fica mais fissurado. A única coisa que você sente é o cheiro da fumaça. Depois, o que vem na sua mente, é apenas um esforço de lembrar as sensações do que sentia quando ainda estava encarnado. Vamos deixar a Lú seguir o caminho dela.
Nisso a moça passou a se mexer no sofá, como que se sentindo desconfortável, e começou a chorar. De uma das portas entrou na sala uma mulher que se aproximou da moça, falando com ela:
-Filha! Você continua se encontrando com o Júlio Vem comigo, vou te ajudar. Vamos conversar no seu quarto.
As duas saíram e ficou apenas o Júlio. Eu continuei a conversa:
-Veja Júlio Você está ficando sozinho. O conselho que te dou é de que aproveite hoje para ir conhecer outra cidade. Lá você receberá o tratamento adequado e terá muitos amigos.
-Mas quem me garante isso? Quem garante que existe outras cidades e que vou ter amigos?
-Júlio, eu te afirmo que existem amigos que querem te ajudar e que tu podes conhecer uma cidade muito linda em poucos instantes.
Se sentindo fragilizado, Júlio senta no chão, junto da parede, e com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos na cabeça, comentou que estava confuso.
-Estou confuso. Sinto que estou sozinho aqui, mas tenho medo de sair.
-Não precisa ter medo de nada. Já está chegando dois amigos para te mostrar essa cidade. Lá você terá o tratamento adequado e irá se recuperar. O que acha disso?
-É, acredito que posso conhecer essa cidade.
Duas entidades se materializaram junto de Júlio, que continuava sentado no chão. Uma delas comentou:
-Bom dia! Então esse é o nosso amigo Júlio que está se decidindo em nos acompanhar?!
Júlio levantou a cabeça, e com um olhar de tristeza conversou com a entidade.
-É, faz tempo que eu deveria ter procurado ajuda. Fiquei atormentando a cabeça de algumas pessoas que nem ligavam pra mim e nem vi o tempo passar.
A entidade, complacente, se ajoelhou na frente de Júlio e lhe respondeu.
-Isso não importa mais. Agora é a oportunidade de tu recuperares o tempo. Primeiro vamos conhecer seus novos amigos. Depois tu poderás desenvolver melhor conhecimento sobre o que passou e vir a auxiliar os teus amigos. Me de sua mão e vamos juntos.
Júlio, ainda sentado, pegou na mão da entidade. Ao se levantarem do chão, os três saíram da sala como num raio de luz.
Bartolomeu disse, então, que estavam encerradas nossas atividades naquele dia. Que a Lú e sua mãe teriam uma longa conversa ainda no domingo sobre o tratamento da filha e que eu já poderia retornar ao corpo, pois já era manhã de domingo.